Clínico

8 nov


Estudo como funcionam a célula e os tecidos
Disseco rins, intestinos,
Na esperança de que a distância carnal,
Bio-física de matéria e repulsão
Entre eu e você, diminua.

Observo o teor do sangue,
A temperatura e a velocidade com que ele corre
Em seu braço estendido.
Enumero aglomerados de desilusão e oxigênio
que trafegam por toda extensão de seu corpo.

E assim prossigo em busca de
Doer sua dor em viva carne,
Entender o que é ácido em seu estômago,
Decodificar hormônios e pensamentos
E chegar, quem sabe, no que sente e no que sinto:
de forma quase pura.

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Odalisca

16 abr

Querem saber a verdade a todo custo.
E acabam sem saber de nada!
Saber que nada se sabe…

Insistem em querer revelar tudo.
Não sabem que estão sobrepondo véus:
Escondendo ainda mais.

Na tentativa de desvelar a alma,
Cobrem-na com sua própria verdade…
Sufocam-na num ato de incoerente paixão.

Esquecem-se de que as coisas mais belas
Estão cobertas:
De matéria, natureza e mistério.

Assim é a entidade feminina,
Que tem seu fascínio no que não se mostra:
Suas razões estão quase sempre ocultas.

A verdade é uma moça digna de pudor,
Da qual não se deve levantar a saia
E a quem enfeitamos com véus:

Odalisca.Imagem

Oh, esses gregos! Eles entendiam do viver! Para isto é necessário permanecer valentemente na superfície, na dobra, na pele, adorar a aparência, acreditar em formas, em tons, em palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses gregos eram superficiais – por profundidade!

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência (Prólogo)

Tigres

3 mar

Um ilusionista que se preze
Não explica como o coelho branco
Foi parar na preta cartola.

E o poeta não revela,
(Está presente no juramento dos poetas)
O que tem dentro da metáfora.

Isso porque a graça consiste
Na surpresa única de cada um que abre a caixa
E encontra, em meio ao susto, o seu próprio tigre.

Cabo de guerra

1 mar

 

Há uma corda, cheia de fios.
Eis que restam apenas alguns,
E ela está na iminência de romper-se
E deixar todos caídos.

O céu puxa com força
A corda de matéria resistente.
E enquanto faz força,
Canta e recita Cecília.

As nuvens sussurram
E baixinho encantam a jovem corda
Com sonhos de infância
E promessas de êxito.

O chão, em evidente desvantagem,
Apela para a ambição que causa cócegas,
E para o coração que guarda
Encontros terrenos.

O esquadrão manda buscar
Mais armas e braços,
E fascínios de matéria,
Da mesma natureza da corda.

Na angustiante tração,
Em meio a agonizante dor, pergunto:
Vai que subitamente,

A corda arrebenta?

Cabo de Guerra

Apendicite

28 fev

A poesia é como um órgão humano,
Sangrento, pulsante e
Calado como o apêndice.

Não se nota e nem dá importância
À sua vil existência,
A menos que inflame.

A não ser que a inimaginável dor implore
Para que abra-se o corpo
E arranque-o fora.

De fora, o apêndice
Para nada mais serve,
Sincera matéria.

De fora, a poesia,
Viva e inorgânica,
Matéria inacabada.

Espelho

20 dez

A magia do mundo concentra-se nos espelhos.

Alguns deles têm gosto de açúcar, apenas.
E sua presença é deliciosa e nostálgica.
O aroma é de amor, somente.
São os espelhos que, não sei o motivo,
Refletem a nossa imagem mais bonita.

Outros são brancos, sinceros.
Eles mostram o brilho dos olhos
(Com absoluta nitidez),
Os  feios egoísmos e as mais ácidas ideias.
Quando se olha para eles, o contorno da imagem
Tem as cores dos mistérios da existência.

Além desses, há os que refletem ouro,
Prata, cobre e esmeralda.
Neles, vemos reis e rainhas.
Eles nos fazem sentir raros
E nos convencem a persistir.

A felicidade chega feito mágica.
E a magia tem certa embriaguez.
Pois em pessoas vejo encantados espelhos
E me encho de fé e lucidez.

"Espelho, espelho meu..."

“Espelho, espelho meu…”

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
(…)
A gente não faz amigos, reconhece-os.

-Vinicius de Moraes

Laço

23 ago

Explode a Epifania,
Como uma ferida inflamatória,
Instalando o caos.

Existe a carestia do mundo,
O cosmos que suplica,
A mente que atribui.

Conspira o espaço-tempo,
Que coincide, simpatiza:
Une…

A poesia nasce do nó.

  “Onde meus talentos e minhas paixões encontram as necessidades do mundo, lá está o meu caminho,  o meu lugar.”

Aristóteles

Dois braços

8 abr

O relógio que outrora deu a vida
É ameaça ritmada e contida:
Tique-taque.

Um ponteiro rasga a pele:
Sau-dade…
O outro anestesia:
Fu-turo!

Raiz

18 mar

É nos olhos de cima que te busco.

No espelho a frente, num acorde brusco.

 

Encontro retinas de águas turbulentas,

 Deparo-me com um vasto mar que persiste

E desenha.

 

Notas tensas e palavras-pranto

Tentam lançar seu guardado encanto.

 

Fecho as janelas e aguardo todo o pó

Pousar sobre minha pele e encharcar as cortinas.

 

A chuva acompanha a nostálgica surdez,

A mudez quando falo do que nunca vi,

A minha saudade das memórias de outrem.

 

Uma parte de nós

É silêncio:

Que colore pele e olhos,

E reanima a Alma.

Iara Pardini, minha bela avó.

Iara Pardini, minha belíssima avó.

 

Tempo

25 jan

A fadiga da aliteração
Do passar dos segundos
Já atingiu minha pele
Não como um machado afiado,
Mas como uma lixa cega;

São tantas consoantes!
Oh! Onde estão as vogais?
Tantos códigos com um
Único objetivo:
Lembrar-me de que o Tempo
Foge;

Assim são os passos
Do dia que termina,
Do êxtase que se vai!
E do meu amor que se retira:
Somente um consonantal
Silêncio,

Que marca o início de aguda
Espera.

"A Persistência da Memória", Salvador Dali, 1934

Os números de 2011

1 jan

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 1.300 vezes em 2011. Se fosse um bonde, eram precisas 22 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Epifania

13 out

Meus pés roçam pelas mesmas calçadas
E os olhos nem encostam na paisagem
Defasada, monótona.

Os raios que incidem em minha matéria
Refletem um beijo.
Em nada me surpreendem…

Passo.
Paro e volto.
Olho o beijo, vejo
A universalidade
Da Lei do Amor.

Seria inútil traduzir as onze dimensões
Do que vivi para a linguagem das cores branca e preta
Das palavras num livro.

Por isso invento dois amantes
E invento bocas e mãos e versos
E invento estrofes e abraços.

De todo o susto,
Da overdose de consciência
Da pequenez em relação aos acasos
Surge, necessário, o poema.

Le déjeuner des Canotiers (1881) - Auguste Renoir

Passado

29 set

Toda a minha matéria marcada,
Em meio ao sofrimento de
retomar o passado,
num possível atentado ao carma do universo:
Resiste em vão a um longo

Bocejo.

Alma

20 jun

É que alma não deixa mesmo gosto
Se pronunciada fora do nativismo da língua portuguesa.
Alma.

Ora, alma! Exercer movimento de pico, ligeiro,
subir em “A”
cair num falso “U”.
Do contrário,
não é alma.

Transbordar toda de olhos,
libertar-se no suor doce das mãos trêmulas,
concentrar bem no meio da palma.

Poetizar a matéria viva.

Suspirar enquanto o corpo come
oxigênio.

Encontrar a pele,
os vasos e  músculos cardíacos,
encarnar
movimento desarmônico simples:
Humano.

Não sou paradoxo

29 mar

"Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." Fernando Pessoa

 Não me importa se sabem meu nome. Uma palavra tão singela, mini-assonância de apenas cinco letras.  Com mais algumas sílabas, eu o faria haicai.  Não se lembram do meu rosto, e eu não sou o rosto. Não sou o que falo e nem o que escrevo. Às vezes penso estar descobrindo segredos quando experimento a arte. Mas o fato é que não estou. Quando penso ser radioativa, não ultrapasso a epiderme. A literatura é escada de carne que leva a não-sei-onde.

Cuspo orações e elas não valem nada. Tudo só vale quando existe o outro, de fora, atribuindo valor, ensaiando reações.

Eu sou o que outros não são e o que são, sinto o que sentem. Dói em mim a dor osmótica da simpatia. E, ainda, nada. Eu não sou nada. Eu estou. Eu apenas funciono.

Doem-me as pernas e o orgulho, e me fazem lembrar de que existir é sacrifício, sacro, ofício, nada mais que isso. Enclausurada em partículas, e, pior, iludida. O acaso decidiu tudo e seqüenciou proteínas em volta do quem sou. Eles não me permitem pensar com clareza e tudo é distorcido demais. Quero um templo de mármore, sem sangue.

Estou um ponto mísero numa esfera quase infinita de nada, apenas de passagem. Estou moléculas. Existo e reajo. Ouço e respiro. E, um dia hei de livrar-me da ilusão da personalidade. Por enquanto, resta-me aceitar que a existência é solitária. Mas a definição é plural.

Estou na escada fria e quente. Sequer posso acusar a vida de ser mentira, porque não é. Não é mentira, nem verdade. Tudo o que é real é idéia. E ela só existe estranha, num infinito de versões e em tabletes de pensamento. O pensamento é solitário.  Transmito uma parte, surge outro degrau. Subo mais alguns centímetros da escada (rolante).

Resta, porém, à alma, um consolo: Pensa.

Ferida

23 fev

São muitos males os que envolvem o hoje. Na verdade, sempre houve muitos males ao longo do que se tem notícia, mas, não há nada como alguns séculos para transormar sofrimento em dor poética. Às vezes tento imaginar o sentimento de optar por esconder minhas palavras para proteger minha própria vida carnal. Essa ideia de mágoa vem a mim em carne viva, como o texto-virgem que nunca conheceu outra mentalidade.

No novo século, as feridas são outras.  As pessoas passam por cantos encantadores, onde, imagine, emprestam-se almas, e sequer param para ver. Elas ficam lá, expostas, enclausuradas em pedaços de madeira, cobertas de pó – ainda bem que alergia é coisa de carne -. Logo que algum desses lugares cruza o meu caminho, não tenho outra opção, se não entrar, é uma atração avassaladora, como um ímã. É inevitável.  É quando eu estou indo embora que me acomete a dúvida de sempre, sobre a doença que provoca todas essas feridas.

Quem quer uma alma emprestada?

Quem quer uma alma emprestada?

Minhas conclusões apontam para a vaidade. Não é tarefa fácil sentar-se e se entregar a outra vida, deixar-se convencer, fingir que sente o mesmo, dizer que não. É difícil admitir a mediocridade da nossa própria existência. Penso que essa doença torna desconfortável a ideia de se deixar manipular. O que me parece um sinal de delírio explícito. Porque, num universo de verdades infinitas, descobri a satisfação de me deixar enganar.

Talvez seja algo futurista, um atestado de insanidade para quem não gosta de ler. Talvez a insanidade seja minha, e tenho certeza de que nunca saberei quem é louco nessa história toda. Pode ser que seja eu mesma, que me canso de mim, do meu tempo, da minha história e queira sentir uma “felicidade clandestina” de doer a dor da Florbela Espanca numa noite. E, na outra, eu queira cantar feito a Leniza nos subúrbios do Rio de Janeiro. É, pode ser que eu seja louca.

Talvez só seja isso mesmo.

Fuga

9 dez

Há algum tempo, tenho evitado caminhos que me trariam a esse endereço da internet. Um endereço que, na opinião de muitos, estaria abandonado. O fato é que fechar meus olhos, buscar alguma coragem, destrancar a porta e abrir as cortinas do estabelecimento não foi nada fácil. Como previsto por mim, as teias – e suas respectivas aranhas – estavam aqui, em seu lugar, tentando alimentar-se de palavras de incentivo de pessoas queridas. Tentativas, por sorte, em vão. Descobri que os açúcares dessas palavras são extremamente indigestos.

Mas a casa estava basicamente a mesma. Azul, da forma que havia deixado. Florbela e o velho Braga ainda repousavam sobre a caixa de som. Que saudade eu estava daqui. Que saudade sentia de mim.

Coloquei as malas no chão. Abri as janelas.

Meu último poema fitou-me, inquieto, e senti certo rancor em seu olhar. Sentei-me ao seu lado. Ele, finalmente, sorriu. Um feixe de luz externo invadiu o quarto e acariciou-me na mão esquerda. As paredes eram tão azuis! Pensei em voltar mais tarde, mas eu me sentia confortável demais para deixá-lo novamente.

Uma indagação do “Bisturi” perfurou a atmosfera de silêncio da sala. Ele percebeu que uma das minhas malas estava faltando e pensou que, talvez, eu a houvesse esquecido em algum lugar. Fiz que “não” com a cabeça, enquanto escolhia palavras pra explicar tal ausência. Logo vi que não precisava explicar mais. A mala “perdida” era a verde, ele notou rapidamente.

Eu havia deixado-a para trás, já que estava completamente vazia. Havia tanta coisa lá dentro! E como pesava! Mas a dor da perda já havia doído, e passara. Lembrei-me, vagamente, do gosto adstringente do fracasso. Mais uma vez perfurando o silêncio, a perturbação vinha, agora de mim,

num grito.

Levantei-me e, com um pano e uma escada, retirei as teias de aranha das arestas do teto, numa limpeza terapêutica. Com os ruídos do meu desce-e-sobe, acabei acordando o velho Braga, que dirigiu-se de volta à estante. Em ordem, era como eu estava, e, ainda melhor, às minhas ordens.

Fiz uma pequena mudança de espaço. A luminária foi parar no lugar do porta-lápis, que, por sua vez, cedeu uma vaga na mesa para o computador. No lugar onde ficava a mala verde, foi parar o meu violão.

Foi quando eu percebi que estava de volta. Minha tagarelice e todas as indecisões do mundo. Meu vício pela dança de salão, meu prazer em cantar. Meus cabelos longos.

Eu, a mesma de sempre. Com uma ressalva apenas: sem expectativas esverdeadas.

Bisturi

14 set

Sinto o bisturi em minhas mãos…
E o verso, em meu bolso.

Afiado, o bisturi, tangente, secante,
Às pequenas unidades da vida.
Sinto-o em minhas mãos trêmulas.
Cego, o verso, bebe do plasma, volátil, inodoro,
Da consciência.

Queima-me a pele em meu bolso da frente.
Solvente, o verso borbulha.
Soluto, o bisturi, em pó, é ácido.

Faz-se a solução.
Reclama o esôfago.
Evapora, o verso.
Condensa, o bisturi.

Páginas encaixam-se,
Em meu bolso,
Ações,
Reações.
Bisturis, rebeldes, rasgam-no.

Bebo.

O bisturi na mão.
O verso embaixo do braço.